03 outubro 2016

[Resenha] Quem matou Nola Payne? - Por Walter Mosley



Título: Quam matou Nola Payne?
Autor (a): Walter Mosley
Páginas: 240
Editora: Landscape
Skoob || Encontre

Sinopse: Logo depois que quebra-quebras devastadores arrasaram Los Angeles em 1965, quando o ódio era intenso e o medo ainda cozinhava em fogo brando, a polícia bate à porta do Easy Rawlins. Ele espera pelo pior, como sempre. Mas a polícia veio lhe pedir ajuda. Um homem foi arrancado do automóvel por uma turba no auge do tumulto e fugiu para um prédio de apartamentos nas vizinhanças. Logo depois uma mulher de cabelos vermelhos, conhecida como Pimentinha, é encontrada morta naquele prédio, e o fugitivo é o suspeito óbvio. Mas o homem tinha sumido. A polícia teme que sua presença em certos bairros crie um novo inferno, por isso pede a Easy Rawlins para ver o que pode descobrir. O homem desaparecido é a chave, mas é apenas o começo. Easy pede ajuda a Rato, seu amigo de longa data para decifrar o mistério. E o que Easy encontra é um assassino cujo ódio, como aquele que ardeu na cidade durante semanas, está misturando paixões profundamente arraigadas, sentimentos que ecoam dentro do próprio Easy. A caçada ao assassino que Rawlins promove revela uma nova cidade surgindo das cinzas com a promessa de uma vida nova para Easy, Rato e seus velhos amigos, Jackson Blue e Jewele.


Los Angeles, a “Cidade Proibida”. O ano 1965. Quebra-quebras devastadores arrasam a cidade onde o ódio queima em chamas intensas e o medo cozinha em fogo brando. É nesse contexto que Easy acaba sendo procurado pela polícia. O pior, o que ele, além de milhares de outros, homens ou mulheres, sempre espera apenas por ser negro, não chega. Algo tão complicado quanto, porém, é o motivo da procura deles. O assassinato de uma mulher de cabelos vermelhos conhecida como Pimentinha. Crime que não veio a público em razão de que a polícia, majoritariamente branca, temer que os eventos devastadores de alguns dias voltem com ainda mais força e violência.

“Olhei para aquela mão. Nenhum policial jamais tinha se aventurado a trocar um aperto de mão comigo. As mãos estendidas da lei seguravam cassetetes de madeira e pistolas, algemas e mandados de prisão, mas raramente dão boas-vindas, e nunca propõem igualdade.”

Na cidade ainda se recuperando do devastador furacão causado por mais de um século e meio de ódio, preconceito e segregação racial, Easy Rawlins tem de encontrar o assassino da “Little Scarlet” Nola Payne. Ele já tem um suspeito, mas as coisas não são exatamente o que aparentam e o crime da adorável Pimentinha tem raízes muito mais profundas. Advindas da incapacidade do ser humano de ver o outro como irmão e igual.



Sabe aquele livro que te dá uma senhora lição mesmo que você já a tenha aprendido? Bem, amigos leitores, esse é um dos livros, cujo título original, Little Scarlett, no Brasil, Quem matou Nola Payne?, não nos dá qualquer pista do que espera pela gente, mas quando se começa a leitura, tem a certeza de que será uma daquelas a nunca ser esquecida. Ajuda muito que a edição da Landscape é bem caprichada, com uma fonte boa de ler e um design impecável, sem erros de revisão aparentes.

Garanto, entretanto, que o mistério sobre quem matou a Pimentinha é o que menos importa na leitura embora ele conduza a trama muito bem. Porque Walter Mosley, escritor de 64 anos, negro, não faz questão de romancear ou florear qualquer coisa nesse livro. Ele mostra, de um jeito cru e direto, inclusive com direito à linguagem rasteira e direta do gueto, a triste realidade de um mal que há muito aflige a humanidade e a sociedade na qual ela vive: o racismo. E abaixo, um trecho para que tenham uma ideia do quão forte é a abordagem desse tema no livro... (Acreditem, tem coisa mais pesada. E sim, Ada é uma mulher branca.)


“- Esse é um lugar violento, Ada, Aqui está cheio de operários e operárias, todos trancafiados juntos, ruminando sobre o que veem e o que não podem ter. Quase todos eles trabalham para um branco. Toda a criança é levada a pensar que só os brancos fazem coisas, governam países, têm história. Todos eles vêm do Sul. Todos eles vêm de um racismo tão bravo  que não sabem nem o que é andar de cabeça erguida. Ficam nervosos quando a polícia passa por eles de carro. Ficam com raiva quando seus filhos são arrastados para longe deles, algemados.
    - Quase toda criança, mulher e homem negro que você conhece sente essa raiva – continuei – Mas nunca lhe dão vazão, de modo que você não sabe de nada. Esse quebra-quebra disse essas coisas em alto e bom som pela primeira vez. É só isso. Agora essas coisas estão ditas e elas nunca mais serão as mesmas. Isso é bom para nós, seja o que for que tenhamos perdido. E poderia ser bom para os brancos também. Mas eles têm de entender o que acabou de acontecer aqui.”

Pergunta: será que nós realmente entendemos isso? Eu acho que não. E enquanto houver gente achando ser dona do mundo, muitos nunca entenderão. E não farão questão de fazê-lo. Portanto, esse excelente livro deve ser lido não apenas como ficção policial, mas como uma legítima e sincera lição sobre o que não devemos fazer e os erros que não devemos repetir.

Quem matou Nola Payne? é tão absurdamente bem escrito e exibe tão bem essa realidade que a imaginação do leitor é capaz de criar uma perfeita imagem holográfica da Los Angeles de 51 anos antes. E óbvio, tal imagem nos faz chorar de indignação tamanha a incapacidade de alguns de olhar além do umbigo. Ou de fazer o que bem entende porque acha que pode não importando quem vai sair machucado ou prejudicado. E a história nos diz que isso sempre, cedo ou tarde, acaba mal e as consequências e cicatrizes sempre serão pesadas, ecoando por anos a fio. E não raramente resultam em fatos ainda piores. E Mosley, com uma maestria brutal até a medula, nos apresenta uma história que possivelmente aconteceu mais vezes do que podemos contar, mas que os livros oficiais resolveram ou tentaram ocultar. Além de apresentando, com uma habilidade ímpar, personagens que muito bem podem, ou poderiam ter existido naquela época tão triste, especialmente o protagonista Easy, tão vívido e tão real quanto qualquer um de nós, com suas contradições, qualidades e defeitos.

Que escritores como Walter Mosley, James Ellroy e outros tantos resolveram nos contar, à sua maneira. Seja racismo ou qualquer outro tipo de preconceito, isso sem contar coisas tão horríveis quanto, eles disseram a verdade, ainda que posta em ficção. Ele contou e o fez de uma maneira que se torna impossível você não fechar o livro depois de terminar a leitura e se perguntar: até quando, meu Deus?

Como dito anteriormente, o mistério cercando a morte de Nola Payne é o que menos acaba importando, quando Easy descobre a verdade sobre tal coisa após incontáveis pistas, interrogatórios e visitas a locais onde não raras vezes ele não é bem vindo. O momento em que se lê até o fim da pretensa leitura é de fazer qualquer pessoa sentir uma pontada equivalente a um golpe de lança de vergonha de fazer parte da raça humana. Tamanha é a raiva que se sente quando se pensa que, na vida real, tantos tiveram atitudes parecidas que ressoaram negativamente não apenas na vida de um, mas de muitos. É como bater na primeira peça de uma fila de dominós: cai um, cai todos. Isso sem contar o penúltimo capítulo, de fazer cuspir fogo de raiva.

Por fim, Quem matou Nola Payne? é uma das melhores leituras da ficção policial de todos os tempos e altamente recomendada para quem gosta de livros não apenas policiais, mas também com uma boa dose de crítica social.

25 comentários:

  1. Adorei a resenha! E seu blog tá uma fofura viu?

    To te esperando no meu blog, tem post novo!
    Um beijo ♡
    Blog: http://docedezoitoblog.blogspot.com.br/
    FanPage: https://www.facebook.com/Doce-dezoito-137076503124426/

    ResponderExcluir
  2. Olá
    Eu não conhecia esse título, mas foi ótimo poder conferir suas impressões a respeito. Ficção policial é um gênero que me encanta muito, então é claro que já quero ler logo, especialmente depois de uma resenha tão motivadora quanto a sua. Fiquei extremamente curiosa quanto ao mistério, desenvolvimento, personagens e também as críticas exploradas.
    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

    ResponderExcluir
  3. Oi Renata,

    Bem interessante mesmo esse livro. Um professor meu da faculdade havia me indicado e agora lendo sua resenha, fiquei bem mais instigada para ler. O racismo precisa ser exposto na literatura, para quem algumas pessoas leiam e vejam o quão imbecil é ser racista. Adoro mistério e essa linguagem mais dura e pesada do autor me chamou bastante a atenção.

    Parabéns pela resenha.

    beijos =)

    ResponderExcluir
  4. Olá Renata,
    Ainda não conhecia esse livro e achei a premissa interessante, pois é a cara de uma amiga minha! Ela gosto muito de livros de mistério e, quando acompanhados de uma boa crítica social, ela fica convencida a ler o livro para ontem.
    Gostei muito da sua resenha e fiquei muito contente por saber que você gostou do livro. Vou anotar a dica para ela.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

    ResponderExcluir
  5. Oi, Renata

    Eu não conhecia o título, mas deu pra ver que ele é um livro com uma história forte mesmo.
    Racismo é o pior mal da humanidade, como as pessoas podem julgar outras pelo tom da sua pele? É irracional!
    E a história também é muito atual, lá em Charlotte, nos EUA, os negros estão sofrendo muito.
    Enfim...ótima resenha.

    Beijos

    ResponderExcluir
  6. Oi Renata, que resenha primorosa. Nunca tinha ouvido falar no livro e agora quero ter ele e ler imediatamente. Fiquei muito curiosa com o que você falou sobre descobrir quem é o assassino não é o mais importante e acho que vou curtir muito a leitura.
    Valeu pela dica
    MEU AMOR PELOS LIVROS
    Beijos

    ResponderExcluir
  7. Olá
    Estou extasiada com essa resenha.Eu não conhecia o autor nem a obra, mas amei a premissa que é imposta.Estou curiosa para saber mais sobe o assassinato e conferir um pouco mais da trama, eu sou uma pessoa muito chorona e vi que o livro também fala sobre o racismo e sempre que vejo ou leio alguma pessoa sendo discriminada eu choro.Creio que esse livro é uma ótima pedida.Muito obrigada pela dica maravilhosa.

    ResponderExcluir
  8. O livro tem uma premissa bastante interessante, principalmente pelo autor deixar a descrição mais crua e real, mesmo com o tema policial, acredito que o desenvolvimento dos personagens deve ter sido ótimo, o que me dá certa vontade de conhecer também. Sua resenha está impecável.
    Um abraço!

    http://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  9. Olá,
    Achei bem interessante e o livro e pude notar o quanto ele é marcante. Adorei o trecho da obra citado e com certeza fiquei com mais vontade de lê-lo. Estou curiosa com o mistério e quero saber mais sobre o desenvolvimento da obra!
    http://www.virandoamor.com/

    ResponderExcluir
  10. Não conhecia esse livro, mas adorei sua resenha.
    Fiquei interessada!
    Beijos.
    http://leituravorazblog.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  11. Adorei a sua resenha, mas confesso que esse não é um gênero que eu leia com frequência, entretanto, a abordagem do autor de passar uma visão realista da vida me chamou bastante atenção, afinal, as vezes precisamos de uma dose de realidade, né?

    Abs,

    ResponderExcluir
  12. Olá,
    O que mais me chamou a atenção é que o autor fala de modo cru e sem floreios sobre o racismo e algumas decisões que acaba implicando.
    Desconhecia a obra, mas fiquei bem curiosa para desvendar o mistério da morte de Pimentinha, mesmo que não seja o foco da obra.

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  13. Eu amo livros policiais. Não conhecia esse, aliás nunca havia visto ou ouvido falar do autor. Mas amei o plot, me deixou curiosa desde o início, e suas impressões aguçaram mais ainda. As edições da Landscape são muito bacanas mesmo, eu tenho algumas aqui e adoro.

    ;D
    Nelmaliana Oliveira

    ResponderExcluir
  14. Olá!! :)

    Eu não conhecia o livro mas adoro livros repletos de mistério. Devo confessar que quero muito entrar no género policial, mas tenho quase a certeza que se vai tornar nos meus favoritos! :)

    Que bom que tem também critica social e que te marcou como um bom policial, o que e muitas vezes difícil, segundo o que vou percebendo. :)

    Boas leituras!! ;)
    no-conforto-dos-livros.webndode.com

    ResponderExcluir
  15. Até o momento estou AMANDO ler os comentários de vocês e mais ainda, profundamente grata por me darem essa atenção após ler a resenha! Vocês todos são maravilhosos até não poder mais!

    ResponderExcluir
  16. Oie!
    Eu ainda não conhecia esse livro, e achei bem interessante a trama apresentada. Nossa, fiquei bem empolgada com esa história, deve ser aquelas que impactam. Achei bem interessante, dica anotada.
    bjks!
    Histórias sem Fim

    ResponderExcluir
  17. Esse parece ser um livro um pouco denso, com toda a carga emocional que passa para o leitor com as descrições sobre o racismo. Acredito que a escrita crua do autor deve acirrar ainda mais as coisas e nos deixar meio assim, aflitos e emocionados. Eu gosto de ler livros assim, mas não acho que seja o momento certo. Já li tanto drama e não-ficção que estou numa vibe de livros mais leves agora. Mas vou anotar a dica, beijos!

    ResponderExcluir
  18. Oiiii,

    Adorei a premissa do livro, e sua resenha me deixou bem curiosa, mas acho q é uma leitura bem profunda, que vai tratar de temas fortes e importantíssimos (como o racismo), e como você disse que nos poderemos chorar de indignação eu acho que vou anotar a dica e deixar um pouco pra depois, não estou em um bom momento para leituras fortes rs.

    Beijinhos...
    http://www.paraisoliterario.com/

    ResponderExcluir
  19. Oi, tudo bem?
    Eu não conhecia o livro e confesso que não costumo ler histórias sobre assassinatos, mas lendo sua resenha fiquei muito animada para fazer a leitura, O racismo é um tema muito interessante e importante para ler e acredito que esse livro deve trazer muita coisa para o leitor, ensiná-lo também. Enfim, parece ser uma obra muito bem construída e escrita mesmo, por isso vou marcar a dica e espero ler algum dia.

    Beijos :*

    ResponderExcluir
  20. Oi, tudo bem? Nossa fica até difícil de comentar sobre esse livro pois sua resenha abordou vários pontos que despertou o meu interesse para a leitura principalmente abordar uma questão social tão forte como o racismo. Embora a história seja de cinqüenta anos atrás ela continua atual até hoje quando a gente vê o preconceito estampando na cara de muitas pessoas que se acham melhores que outras. E no meio de tudo isso para refletir ainda temos um suspense para desvendar quem é o assassinato.
    Dica anotada.
    Bj

    ResponderExcluir
  21. Olá, adoro livros que possuem temas que nos fazem abrir os olhos e esfregam a nossa triste realidade na nossa cara, a literatura negra é excepcional e temos que dar mais chances a ela a cada dia, quero muito ler esse livro pois ele parece ser ótimo

    ResponderExcluir
  22. Olá,
    Primeiramente, gostaria de falar à respeito dessa capa que, particularmente, achei linda. Ela é bem misteriosa e chamativa e, sem dúvidas, me deixaria com muita vontade de ler o livro só de vê-la.
    Em relação à resenha, amei e só aumentou minhas expectativas em relação ao livro.
    Parabéns pela bem escrita resenha!
    Bjs

    ResponderExcluir
  23. Oii, tudo bem?
    Eu não conhecia esse livro, mas tenho que te confessar que talvez eu não o leria porque não faz muito o meu estilo, sou mais de romances, romances históricos, chick lits, new adult então provavelmente esse livro não me conquistaria.
    Mas adorei a resenha, muito bem escrita por sinal.
    Abraços da Mary
    http://leiturasdamary.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  24. Olá!
    O tema desse livro é bem forte, pois o racismo já esta enraizado nas pessoas. Sem querer acabamos olhando para uma pessoas negra com diferença e isso não pode acontecer de jeito nenhum. Gostei do livro e se tiver oportunidade quero ler.
    Beijinhos!

    ResponderExcluir
  25. Oie!!!
    Não tem jeito, mesmo sabendo que não devemos julgar um livro por sua capa e/ou título nós sempre ficamos de olho pra ver se os mesmos nos atraem ou não. E, por isso, que as resenhas de blogs literários são importantes, pois ajudam a divulgar ótimas estórias, como essa que você nos apresentou, que passariam batidas.
    Gostei muito de sua resenha e tive a mesma impressão descrita por você de que o pano de fundo se torna até mais interessante que o próprio mistério em torno do assassinato em si.
    Acredito que o preconceito, o racismo e o próprio "apartheid" tenham diminuído, mas não acabado totalmente. E infelizmente vejo que algumas políticas sociais parecem estar novamente inflando esta intolerância e aumentando o preconceito ao nos separarem por credo e cor de pele ao invés de nos unirem como seres humanos com os mesmos direitos e deveres.
    Valeu pela dica! Ela levanta várias questões e reflexões!
    Bjinhos ;)
    Elaine M. Escovedo
    Caminhando Entre Livros
    Http://www.caminhandoentelivros.com.br

    ResponderExcluir