09 agosto 2017

[Resenha] A menina dos olhos molhados - por Marina Carvalho


Título: A menina dos olhos molhados
Autor (a): Marina Carvalho
Páginas: 296
Editora: Globo Alt
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Sinopse: Bernardo é jornalista por vocação: curioso, comprometido e muito bom com as palavras. Trabalha há anos em um importante jornal da cidade e suas matérias investigativas são sempre elogiadas. Ele só tem uma limitação... Odeia trabalhar em equipe. Há alguns anos, Bernardo sofreu com uma grande decepção amorosa, o que contribuiu para o seu jeito fechado e antipático. Por isso a incumbência de levar Rafaela – a nova estagiária do jornal – para todos os lugares é como o inferno para ele. Bernardo não perde nenhuma oportunidade de evitá-la, mas Rafa, além de ser uma jornalista extremamente talentosa, não engole desaforo. Com o passar dos dias, Bernardo percebe que não conseguirá seguir seu plano de ignorar a estagiária, muito menos todos os sentimentos que ela desperta nele. Entre reportagens intrigantes e perigosas, eles vão descobrir que têm muito mais em comum do que a imensa paixão pelo jornalismo...

Resenha anterior:
Azul da cor do mar - Por Marina Carvalho

"E é na vigésima primeira vez que passo na frente da casa com varanda de madeira que noto um par de olhos protegido pela vidraça da janela. Não encaro. Sou um garoto orgulhoso. Mas pelo canto do olho, parcialmente escondido pela aba do boné, vejo que é uma menina.
Não tenho ideia do que está fazendo escondida dentro de casa em vez de aproveitar a praia, que fica a poucos metros dali. Está certo que é apenas uma criança e não deve ter permissão para sair sozinha. Mas há alguma coisa naqueles olhos. Curiosidade? Tédio? Tristeza? Não sei... Tampouco pretendo investigar.
Tenho quase quinze anos. Faz tempo que meus interesses mudaram. Hoje prefiro meninas que apreciam minha companhia, não as que ainda sonham em ser princesas. E aquela atrás da janela ainda deve viver no mundo cor-de-rosa dos contos de fada, a julgar pelo brilho nos olhos dela.
Estranho. Parecem olhos molhados. A menina dos olhos molhados.
Não dou a mínima."

Bernardo, no auge de seus vinte e poucos anos, pode se considerar um homem realizado e feliz. Repórter investigativo em um dos jornais mais bem conceituados de Minas, além de um jornalista renomado e reconhecido na área em que trabalha. Famoso e cheio de sucesso com as mulheres quase tanto quanto no quesito profissional, dono de sua própria casa cujo único outro morador aceito é seu cachorro e companheiro constante, Cid. Solitário, impaciente, bonitão e arrogante, estas são as características mais apontadas de Bernardo por aí. A primeira e última, no entanto, não são verdadeiras. Parte de uma família amorosa e barulhenta, ele apenas tem necessidade de um tempo só para si vez ou outra. Bom no que faz e dedicado à seu trabalho, é alguém que não gosta de, como ele mesmo diz, ser interrompido.

"— A Rafaela vai fazer estágio na Folha, mais especificamente na sua editoria — anuncia Maurício, com o indicador em riste, enquanto alisa a barriga protuberante que se insinua por baixo do paletó do terno.
Não entendo qual é o meu papel nisso tudo. Por que eu deveria ser comunicado a respeito da contratação de alguém, especialmente de uma estagiária? Resolvo levar o aviso meio na brincadeira.
— Sei. Estamos precisando mesmo de alguém para servir o cafezinho.
Então eu rio, para enfatizar a piadinha. Mas fico sozinho nessa, porque nenhum deles me acompanha. Que falta de senso de humor!"

Imaginem qual não será sua surpresa e, principalmente, o tamanho de seu horror, quando seu chefe anuncia que ele acaba de ganhar uma espécie de sombra. A nova estagiária do jornal, Rafaela, deverá ir e vir com ele de um lado para o outro, seguindo-o em todas as reportagens externas e acompanhando seus passos também dentro da redação, de modo que ele possa lhe ensinar tudo o que sabe e que aprende diariamente, na prática, a respeito da profissão. Para Bernardo, uma "menininha mimada e toda princesinha" o tempo todo no seu pé é o fim do mundo. Para Rafaela, claro, seu novo mentor é um monstro e conviver com ele tão de perto todos os dias não será nada menos que isso. Entre palavras duras, explosões e fúria de ambas as partes, eles terão que encontrar o melhor jeito de trabalharem juntos e, talvez, descubram ao longo desse processo que por trás de toda essa antipatia mútua pode se esconder uma atração intensa e um carinho palpável. Mais que isso, a aproximação de Bernardo e Rafaela pode levá-los à caminhos onde talvez já tenham estado há tempos e os quais jamais imaginaram cruzar novamente. O passado desse casal que se odeia e se apaixona ao mesmo tempo pode estar interligado e, assim como qualquer descoberta, esta poderá ser capaz de afastá-los ainda mais... ou uni-los de vez.

"Penso em deixar que ela escape ilesa, porém na sala de espera, enquanto Ofélia não consegue esconder sua perplexidade diante das vozes alteradas que devem ter ultrapassado os limites do escritório do chefe, alcanço Rafaela, agarro seu braço para que não escape e faço com que a última palavra seja minha:
— Reze para ser eficiente. Caso contrário, vai se arrepender de ter escolhido o curso de Jornalismo."




A Menina dos Olhos Molhados faz parte de uma dulogia, sendo continuação de Azul da Cor do Mar, não como uma história posterior, mas sim narrada da perspectiva de Bernardo e ao contrário da anterior, que é contada a partir da visão de Rafaela. Neste segundo livro a narração é alternada entre o passado e o presente, focando principalmente no atual, mas sem deixar de mostrar fragmentos do passado de Bernardo, trechos que contribuem de forma bastante positiva para a compreensão da história e nos permitem conhecer e entender melhor a personalidade de nosso protagonista.

Terminei a leitura de Azul da Cor do Mar e confesso que fiquei meio dividida entre ler e não ler A Menina dos Olhos Molhados. Não que eu não tenha gostado do primeiro livro, pelo contrário, me envolveu bastante. Entretanto, não é sempre que estamos afim de ler uma história onde já sabemos o que vai acontecer e conhecemos os fatos, ainda que ela seja contada de um ponto de vista diferente, não é? Eu não estava. Fiquei receosa de que a leitura se tornasse enjoativa e repetitiva. Porém, Marina, você sabe mesmo como surpreender, hein? Sim, eu me surpreendi. A temática é a mesma. Os cenários e personagens são todos iguaizinhos. Mas a autora soube incrementar o enredo, justamente com esta ideia de alternar entre o presente e passado do personagem narrador, coisa que não ocorre no livro antecessor, para que possamos, além de conhecer uma outra visão a respeito dos acontecimentos, saber fatos importantes da vida de Bernardo, que não teriam como ser mostrados pela visão de outra pessoa. Eu não esperava descobertas novas, mas foi o que encontrei.

A Menina dos Olhos Molhados é sim um livro que pode ser considerado clichê e água com açúcar. É romancezinho para ler em um fim de tarde curtindo o pôr do sol ou em madrugadas tristes com um pote de sorvete ou uma caixa de chocolates ao lado. Sim, é uma história bem mulherzinha mesmo. Mas eita leitura deliciosa, gente! Leve, divertida, ideal para relaxar e passar o tempo.

Quanto as personagens, tanto Bernardo quanto Rafaela me cativaram muito. Ele é o típico mocinho que mais se parece com o vilão e eu me apaixonei, claro. Em alguns momentos tive vontade de pegá-lo pela mão e dizer "ei, não seja tão babaca", mas em outros, na maioria deles, tive vontade de cuidar desse moço fofo ou não tão fofo assim, tipo como todas as mulheres da trama. Rafaela, por sua vez, também foi alguém a quem tive facilidade de me apegar. É uma garota comum e, talvez, por isso tenha sido tão especial. Admito que, a princípio, tive a impressão de que seria uma mocinha fresca e tudo mais. Mas não. Ela é delicada, gosta de fazer as unhas e estar sempre na moda. É baixinha e adora um salto alto, tem um ímã para desastres (me identifiquei) especialmente em relação a tombos e tropeços. Teimosa, invocada quando tem que ser e humilde. Além do ódio inicial e da paixão que passam a nutrir pouco a pouco um pelo outro, a outra grande semelhança entre Bernardo e Rafaela é que ambos possuem um coração gigante e isso fica visível. Inclusive, casal tapas e beijos, vocês ganharam mesmo um pedacinho do meu.

Preciso dizer que, como estudante de Jornalismo, A Menina dos Olhos Molhados também conquistou um lugarzinho especial dentro deste meu mundo literário, pela forma com que aborda a profissão, a área de jornalismo investigativo e o ambiente da redação que, como aluna, eu ouço tanto falar no dia a dia. A cada início de capítulo nos é dada uma frase curta a respeito de jornalismo, tratando de questões tanto teóricas quanto práticas. E, ao longo da leitura, eu percebi que já havia me deparado com a maioria daquelas frases ou com outras muito parecidas, durante as minhas aulas, o que particularmente para mim foi bem legal.

O único "ponto negativo" que pode incomodar algumas pessoas, mas não me incomodou em nenhum momento, é o fato de ser, como eu disse, um livro clichê. Previsível e não no sentido de falta de surpresas, porque ele também não peca neste aspecto, mas no sentido de que a gente já lê sabendo que encontrará um final feliz. É como bolo de mãe ou os almoços de domingo na casa da avó: a gente já conhece o sabor, mas isso não faz com que deixe de ser bom. Traz a sensação de um dia em casa, onde tudo é calmo, confortável e do jeitinho que a gente deixou. Mas quem não gosta de estar em casa um dia ou outro, não é?

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